Uma introdução aos três pilares da conduta humanista: pensar criticamente através da razão e da ciência, agir com bondade guiado pela empatia social, e procurar uma vida plena e feliz no aqui e agora, reconhecendo que esta é a nossa única existência.
O Humanismo tem as suas raízes na Grécia Antiga. Desde então, esteve no centro de períodos de grande avanço no mundo ocidental, como o Renascimento e o Iluminismo. Neste artigo, apresento algumas das figuras e ideias que deram origem ao Humanismo Secular tal como o conhecemos hoje.
Uma explicação detalhada sobre o humanismo secular, os seus 7 princípios fundamentais e a sua perspetiva sobre religião, naturalismo e ateísmo.
Inclui uma análise sobre como os humanistas seculares veem as alegações religiosas e sobrenaturais, bem como a sua relação com o ateísmo, agnosticismo e deísmo.
Um guia essencial que clarifica as nuances políticas, filosóficas e sociológicas da comunidade não-religiosa em Portugal. Descubra as distinções fundamentais entre termos como laico, secular, ateu, agnóstico, naturalista e apateísta.
O Dia Internacional Humanista é celebrado anualmente a 21 de junho, uma data que une humanistas de todo o mundo na promoção dos valores positivos do Humanismo e na partilha das preocupações globais do movimento. Esta celebração, que remonta à década de 1980, é uma oportunidade para refletir sobre a importância da ética secular, da razão e da compaixão na construção de uma sociedade mais justa e humana.
Definições de Humanismo
“O Humanismo é uma postura de vida democrática e ética, que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Defende a construção de uma sociedade mais humana, através de uma ética baseada em valores humanos e outros valores naturais, dentro do espírito da razão e do livre-pensamento, com base nas capacidades humanas. O Humanismo não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade.”
“A palavra Humanismo deriva do latim humanus, que significa “humano”. Podemos definir brevemente um humanista como alguém cuja visão do mundo confere grande importância aos seres humanos, à vida e ao valor do ser humano. O Humanismo realça a liberdade do indivíduo, a razão, as oportunidades e os direitos.”
Gaarder, Jostein em O Livro das Religiões
“… procura, sem recorrer à religião, o melhor nos seres humanos e para os seres humanos.”
Chambers Pocket Dictionary (Dicionário de Bolso Chambers)
“… uma doutrina, atitude, ou modo de viver centrado nos interesses ou valores humanos; em particular: uma filosofia que normalmente rejeita o sobrenatural e dá enfâse à dignidade do indivíduo e ao seu valor e capacidade para a auto-realização pessoal através do uso da razão.”
“… um apelo ao uso da razão, em vez de revelações ou autoridades religiosas, como uma forma de partir à descoberta do mundo natural e do destino do homem, e, também, para desenvolver uma base para a moralidade… A ética humanista também se distingue por a sua acção moral ter como objectivo alcançar o bem-estar da humanidade, em vez de procurar cumprir a vontade de Deus.”
Oxford Companion to Philosophy (Acompanhante da Filosofia Oxford)
“A rejeição da religião em prol do avanço da humanidade pelo seu próprio esforço.”
“O que é caracteristicamente humano, e não sobrenatural, o que pertence ao homem e não a forças externas, o que eleva o homem à sua maior altura ou lhe dá, enquanto homem, a maior satisfação.”
Encyclopedia of the Social Sciences (Enciclopédia das Ciências Sociais)
Valores do Humanismo
O biólogo T. H. Huxley fez um bom resumo da abordagem humanista da vida quando disse a sua famosa frase: devemos aprender o que é verdade para podermos fazer o que é correto.
“Aprende o que é verdade, para fazer o que é correto.”
— Thomas Henry Huxley
A abordagem humanista da vida enfatiza ver o mundo como ele realmente é, tratar os outros como eles gostariam de ser tratados e viver a vida o mais plenamente possível.
Pensar claramente
Os humanistas valorizam o pensamento racional e crítico.
Tudo está aberto a questionamento
Não aceitamos as coisas simplesmente porque nos foram ditas. Fazemos perguntas e pensamos de forma cuidadosa e crítica, tanto sobre os nossos próprios pontos de vista como os dos outros. A isto chama-se uma abordagem cética.
As respostas baseiam-se em evidências
Não podemos ter a certeza absoluta de que aquilo em que acreditamos é verdade, porque tudo está aberto a questionamento. Mas se tivermos boas evidências, temos uma boa razão para acreditar em algo.
A evidência é descoberta através da ciência
Rejeitamos explicações sobrenaturais para o funcionamento do mundo, tais como a existência de deuses. O mundo, todas as evidências nos indicam, é mais bem compreendido como um lugar natural. A observação e a experimentação, questionar e testar teorias, provaram ser a melhor forma de descobrir como ele funciona.
A ciência pode mostrar que estamos errados
Seguir as evidências significa aceitar que podemos estar enganados e estar dispostos a mudar de opinião. Estar errado não tem problema! Significa que a nossa compreensão está a progredir.
Não saber faz parte da diversão
Como fazemos perguntas e a nossa compreensão muda, temos de nos sentir confortáveis na incerteza. A curiosidade e a jornada para descobrir mais podem ser um dos grandes prazeres da vida.
“Os humanistas não afirmam saber, apenas pedimos que tenha muito cuidado com aqueles que afirmam saber. Quem lhes disse? O que significa o conhecimento deles? Por que razão deveria confiar neles? Acima de tudo, também não acredite na minha palavra. Não acredite na palavra de ninguém. Descubra por si próprio.”
— Stephen Fry, patrono da Humanists UK
Ser bom
Os humanistas agem a pensar nos outros.
Trate os outros como quer ser tratado
Ou melhor, como eles querem ser tratados. Somos todos diferentes, por isso usamos a razão, a empatia e o diálogo para descobrir a forma mais amável de agir em relação aos outros.
Os seres humanos são criaturas comunitárias
A ciência demonstrou que somos intrinsecamente sociais, empáticos, altruístas e compreensivos em relação a conceitos como a justiça e a equidade.
Cultivamos a bondade em nós próprios e na nossa comunidade
Sabemos que os seres humanos também são capazes de crueldade. Mas os humanistas procuram criar um ambiente que cultive o bem em todos nós.
Agimos moralmente porque é bom para todos
Não porque esperamos uma recompensa (como um lugar no céu). Confiamos na razão e na empatia para tomar decisões sobre o que é bom.
O que é bom pode mudar
Refletimos sobre as decisões, as suas consequências e novas informações, e ouvimos e discutimos as coisas com outras pessoas. Estamos abertos a mudar aquilo que consideramos bom.
“Por que razão deveria eu considerar os outros? Pessoalmente, penso que a única resposta possível é a humanista — porque somos seres naturalmente sociais; vivemos em comunidades; e a vida em qualquer comunidade, desde a família para fora, é muito mais feliz, plena e rica se os membros forem amigáveis e cooperantes do que se forem hostis e ressentidos.”
— Margaret Knight
Viver bem
Esta é a única vida que temos
Ela é preciosa. O sentido da vida é vivê-la, procurar a felicidade e a realização no aqui e agora, e não esperar que ela chegue num além imaginário.
“A vida feliz é, numa extensão extraordinária, o mesmo que a vida boa.”
— Bertrand Russell, filósofo
Não existe uma receita única para uma vida boa
Os seres humanos são todos indivíduos, e coisas diferentes fazem-nos felizes. Exercer a curiosidade, ligarmo-nos aos outros, procurar experiências diferentes e melhorar a vida dos outros.
Isto representa o pensamento de muitos humanistas.
“O propósito da vida é vivê-la, saborear a experiência ao máximo, estender a mão ávida e destemidamente para experiências mais novas e ricas.”
— Eleanor Roosevelt, diplomata
As nossas ligações com os outros
Os seres humanos são todos indivíduos, e coisas diferentes fazem-nos felizes. Do ponto de vista do humanista, não existe uma receita única para uma vida boa.
Humanistas como James Hemming, Eleanor Roosevelt e Bertrand Russell escreveram sobre a felicidade como estando na procura de experiências diversas, no exercício da nossa curiosidade, na apreciação da beleza e na criação de ligações significativas com os outros.
“A vida de alguém tem valor enquanto se atribuir valor à vida dos outros, através do amor, da amizade, da indignação e da compaixão.”
— Simone de Beauvoir, escritora
Fazer-se feliz a si próprio e aos outros
Os humanistas de hoje colocam a compaixão e a ligação no centro do viver bem, a par de atividades que enriquecem e aumentam a nossa capacidade de as vivenciar.
Como tantos valores humanistas, estas ideias sobre viver bem são tão antigas quanto a humanidade.
Há mais de dois mil anos, os Epicuristas definiram a felicidade como o objetivo supremo da vida, rejeitando o papel dos deuses para a alcançar.
Viviam em comunidade, partilhando responsabilidades e recompensas, acreditando que a verdadeira realização vinha da amizade, da simplicidade e da harmonia com o mundo natural.
“O prazer é o nosso primeiro bem congénito.
É o ponto de partida de toda a escolha e de toda a aversão, e para ele voltamos sempre, na medida em que fazemos do sentimento a regra pela qual julgamos todas as coisas boas.”
— Epicuro, filósofo grego antigo
Valorizar a criatividade
A curiosidade, a criatividade e a ligação são essenciais para a experiência de ser humano.
Os humanistas valorizam as artes em todas as suas formas pela sua capacidade de despertar a alegria, alargar as nossas perspetivas e engrandecer a nossa humanidade.
As artes relembram-nos a riqueza da experiência humana e a extensão daquilo que temos em comum uns com os outros.
“O meu horizonte sobre a humanidade é alargado ao ler poetas, ver uma pintura, ouvir alguma música, alguma ópera, que nada tem a ver com uma condição humana volátil ou com a luta ou o que quer que seja. Enriquece-me como ser humano.”
— Wole Soyinka, romancista
No breve texto que se segue, faz-se uma apresentação daqueles que são os princípios fundamentais da Filosofia Humanista:
Crença na Razão Humana e no Método Científico:
O nosso conhecimento do Universo é limitado e como tal existem fenómenos para os quais o Homem ainda não encontrou uma explicação. No entanto, o facto de desconhecermos qual a explicação para um fenómeno, não significa que esse seja um fenómeno sobrenatural. Significa simplesmente que estamos perante algo que merece a nossa investigação.
O Homem como um produto da Natureza:
O Homem é um ser constituído por matéria e é produto da Natureza. A consciência do homem está ligada aos mecanismos da sua mente. Como tal, o Humanismo não aceita que o homem tenha uma alma eterna ou consciência após a morte.
Cada ser humano como uma criação única:
Cada ser humano tem algo de único e valioso que o distingue dos demais e que deve ser valorizado. O verdadeiro Humanista é alguém tolerante, que valoriza a diversidade e a diferença existentes em cada indivíduo.
Fé na Humanidade:
O Humanismo acredita nas capacidades da Humanidade para resolver os seus problemas, com base na Razão e na Ciência, sem recurso a qualquer ente superior. Dado que racionalmente não é possível provar a existência ou inexistência de um Deus, os Humanistas são geralmente Agnósticos ou Ateus.
Oposição ao Determinismo, Fatalismo e Predestinação:
Os seres humanos, apesar de condicionados pelo seu passado, possuem capacidade para decidir e alterar o seu futuro.
Crença numa Ética e Moralidade humanas:
A Ética e Moral, enquanto ferramentas essenciais para o funcionamento de uma sociedade harmoniosa, devem ter como base a razão humana. Um Humanista não aceita que lhe imponham valores morais escritos num qualquer livro sagrado ou determinados por suposta inspiração divina. A regra de Ouro de qualquer humanista será “Trata os outros como gostarias que te tratassem a ti próprio”.
Tem como objectivo a Felicidade e o Progresso do Homem:
A todos os níveis e para toda a Humanidade, sem excepções.
Luta pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade:
Como membros da espécie humana, é nossa responsabilidade lutar para que estes valores se tornem uma realidade.
Contributo para a Comunidade:
O Humanismo acredita que o indivíduo pode alcançar uma vida feliz, equilibrando a sua satisfação pessoal, com o empenho em contribuir para o bem estar de todos.
Apreciação da beleza das realizações humanas:
A mente humana tem produzido Arte e Conhecimento do qual se deve orgulhar. O contacto com o produto do génio humano é algo que enriquece e aumenta o prazer pela vida. Todos os seres humanos devem ter a oportunidade de se aperceberem do seu potencial e de o utilizarem em actividades onde se sintam realizados.
Separação entre o Estado e a Igreja:
Todos devem ser livres para seguir a sua fé, qualquer que ela seja. Como tal, para que não haja a imposição das crenças de alguns sobre os outros, facto que demasiadas vezes gerou conflitos e mortes desnecessárias, a fé não deve ser autorizada a imiscuir-se nos assuntos do Estado.
Ênfase na Qualidade de Vida:
Apesar de os Humanistas defenderem uma prosperidade material crescente, o bem estar material não é suficiente para garantir a felicidade e realização de ninguém. O Humanismo discorda consequentemente do materialismo e da tecnologia pela tecnologia.
Breve Introdução à História do Humanismo
O Humanismo tem as suas raízes na Grécia Antiga. Desde então, esteve no centro de períodos de grande avanço no mundo ocidental, como o Renascimento e o Iluminismo. Neste artigo, apresento algumas das figuras e ideias que deram origem ao Humanismo Secular tal como o conhecemos hoje.
O Humanismo na Antiguidade
Sócrates
As primeiras referências a filosofias semelhantes ao Humanismo surgem na Antiguidade, no turbilhão de ideias produzido pelos filósofos da Grécia Antiga. Foi com eles que, pela primeira vez no mundo ocidental, se tentaram encontrar explicações racionais para o mundo que nos rodeia, sem ter por base a religião ou a superstição.
Sócrates, condenado à morte em 399 a.C. por não reconhecer os deuses da cidade e por ser acusado de corromper a juventude, foi talvez o primeiro humanista famoso, embora a palavra “Humanismo” ainda não existisse. Tinha tanta convicção nas suas ideias que se recusou a pedir clemência pelos seus atos, o que o levou a suicidar-se com cicuta.
Sócrates centrava as suas reflexões nos problemas humanos, tentando perceber qual seria o modo de vida ideal para o ser humano. Sobre ele, disse-se que “fazia a filosofia descer do céu à terra, alojava-a nas cidades e trazia-a para dentro dos lares, obrigando as pessoas a pensar sobre a vida e a moral, sobre o bem e o mal”.
Para Sócrates, a virtude identificava-se com o saber, e o ser humano só agia mal por ignorância. Ao contrário de alguns sofistas, que defendiam o relativismo moral, ele considerava que a capacidade de distinguir o certo do errado estava na razão de cada pessoa, e não na sociedade.
Acreditava também que a busca incessante pelo conhecimento era vital. A ele é atribuída a célebre frase: “Só sei que nada sei”. Embora tivesse noção da sua ignorância, foi um dos primeiros a afirmar que era possível ao ser humano alcançar verdades universais sobre o mundo, e que a base para a aquisição de conhecimento era a razão.
Na sua época, as afirmações de Sócrates eram revolucionárias, tal como a sua capacidade de argumentação, que fazia os mais convictos reconhecer que estavam errados e chegar por si próprios a novas conclusões. Embora não nos tenha deixado nenhum registo escrito das suas ideias, só conhecemos o que nos chegou através de outros filósofos, como Platão, a sua influência sente-se até aos dias de hoje.
Os Estóicos
Também o estoicismo, movimento que surgiu por volta de 300 a.C. em Atenas e influenciou a cultura romana até cerca de 200 d.C., deu contribuições importantes para o Humanismo. Destacam-se a sua visão sobre a moral, a importância do raciocínio para o conhecimento da natureza, os princípios de entreajuda entre os indivíduos e o valor de levar uma vida feliz.
Os estóicos afirmavam que a busca por uma moral devia basear-se na observação da natureza. Através dessa observação, seria possível encontrar a justiça universal, presente nas leis naturais e acessível a todos os seres humanos. As leis humanas, por sua vez, seriam uma pálida imitação da lei natural.
O conceito de que o ser humano ocupa um lugar central na reflexão filosófica foi referido por Cícero, um pensador influenciado pelo estoicismo, a quem se atribui a frase: “Para a humanidade, a humanidade é sagrada”.
Os estóicos eram cosmopolitas: integravam-se na sociedade do seu tempo e preocupavam-se com o bem comum. Foram, dos primeiros, no mundo ocidental, a defender a ideia de que todos os seres humanos faziam parte de uma mesma comunidade.
Em resumo, os humanistas da Antiguidade:
Concentravam-se nos seres humanos;
Aceitavam a razão como a base de toda a perceção;
Acreditavam na existência de uma ordem universal;
Acreditavam numa lei natural que se aplicava a todos os seres humanos.
O Humanismo no Renascimento
Após a Idade Média, surge, no século XIV, como reação ao obscurantismo introduzido na Europa pelos excessos do Cristianismo e da Igreja Católica, o Renascimento. O Humanismo renascentista representou um ponto de viragem, afastando-se das preocupações com falsas moralidades e passando a valorizar a importância de viver a vida com plenitude. Foi também um período em que as artes e o conhecimento floresceram, e a Europa progrediu em termos civilizacionais, recuperando parte do seu atraso relativamente a outras partes do mundo.
Leonardo da Vinci
Como exemplo de um homem do Renascimento, podemos apresentar Leonardo da Vinci. Com apenas 17 anos, viajou, em 1469, para Florença, núcleo do Renascimento. Nesta cidade, envolveu-se ativamente em todas as áreas da arte, da cultura e da ciência. Interessou-se pelo estudo da natureza e dos processos naturais, dedicando especial atenção a temas tão diversos como o movimento da água, o sistema circulatório humano, o desenvolvimento fetal e a estrutura das plantas. Além disso, tornou-se inventor, descobrindo princípios que ainda hoje são utilizados em muitas das nossas máquinas.
Foi também um estudioso do ser humano. Criou estudos, esboços e pinturas geniais que revelam uma grande sensibilidade pela beleza da forma humana. Com as suas obras, contribuiu para normalizar a representação do nu na arte, recuperando a tradição clássica e afastando-se das conotações exclusivamente religiosas da Idade Média. O seu fascínio pelo ser humano pode ser observado nas suas pinturas, onde as figuras têm um forte carácter e personalidade, como na “Mona Lisa”, na “Dama com Arminho” ou na “Última Ceia”.
As Ideias do Humanismo Renascentista
A Renascença representou a redescoberta do Humanismo da Antiguidade. Em busca de filosofias e moralidades alternativas às cristãs — que tinham sido dominantes durante a Idade Média —, os humanistas da Renascença estudaram as obras produzidas na Grécia e Roma antigas.
Neste período, tornou-se central o regresso ao passado clássico, à sua arte e cultura, o que influenciou profundamente a educação, que passou a incluir o estudo dos textos gregos e latinos. Este foi também o período em que a Europa iniciou a sua longa caminhada para a secularização, que conduziria ao afastamento da Igreja dos caminhos do poder.
O Renascimento testemunhou os primeiros passos no uso sistemático da observação e experimentação, que viriam a abrir portas para o método empírico mais tarde, fundamental para a Ciência moderna.
Podemos afirmar que o Renascimento contribuiu para a filosofia da época com:
Uma nova atitude em relação à humanidade;
Uma grande vitalidade intelectual;
Uma nova visão do mundo natural;
Um novo método científico que retirou à religião o controlo do conhecimento;
A importância de apreciar a vida ao máximo.
O Iluminismo
O século XVIII trouxe uma nova etapa ao Humanismo, com a chegada do Iluminismo, que teve as suas origens em Inglaterra, mas conheceu o seu auge em França. O Iluminismo foi importante por ter aprofundado muitas das ideias da Renascença, mas também por ter introduzido conceitos originais e fundamentais para o Humanismo.
Voltaire
Este francês foi um dos expoentes do Humanismo Iluminista. Tendo sido preso aos 23 anos devido aos seus versos satíricos sobre as autoridades, foi libertado sob a condição de sair do país. De França, viajou para Inglaterra, onde foi profundamente influenciado pela liberdade de expressão, tolerância religiosa e racionalidade que aí predominavam. Fez da sua vida uma luta constante contra o fanatismo, a intolerância e o abuso de poder, tendo feito ataques particularmente fortes ao poder eclesiástico.
Embora não fosse ateu, lutou contra a opressão religiosa e a crença dogmática. Para ele, nada sabíamos do possível criador do mundo, pois este nunca se poderia ter revelado de forma sobrenatural, como acreditavam judeus, cristãos e muçulmanos. Deus, se existisse, apenas se manifestaria através da natureza e das leis naturais.
Voltaire afirmava ainda que a ignorância e o fanatismo faziam com que os seres humanos se perseguissem e matassem uns aos outros em nome da religião. Considerava absurda a ideia de que se pudessem mudar os acontecimentos do mundo ou influenciar Deus através da oração, pois o mundo era governado por leis imutáveis. Para ele, o esclarecimento e a razão acabariam por vencer, desde que se conseguisse explicar os novos conceitos e ideias do Iluminismo de forma simples e acessível a todos.
As Ideias do Humanismo Iluminista
Tal como os humanistas da Antiguidade, os filósofos do Iluminismo acreditavam no poder da razão humana. O Iluminismo é, aliás, também conhecido como a Idade da Razão. O seu objetivo era estabelecer uma base moral, religiosa e política que acompanhasse a razão intemporal do ser humano.
A ênfase passou a ser colocada na educação, com o objetivo de criar uma sociedade mais esclarecida. Os iluministas acreditavam que tinha chegado o momento de educar as massas, criando assim uma sociedade melhor. Com uma maior educação, seria o fim da miséria e da opressão, pois estas eram causadas apenas pela ignorância e pela superstição. A humanidade daria, assim, grandes passos em frente, e a irracionalidade e a ignorância seriam varridas.
Os iluministas lutavam pelos direitos do indivíduo e do cidadão, o que significava, acima de tudo, a defesa da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão. Os direitos de cada pessoa para expressar as suas opiniões tinham de ser assegurados, quer se tratasse de assuntos religiosos, morais ou políticos.
Como produtos que ainda hoje influenciam as nossas vidas, destacam-se a criação da Enciclopédia — que inspirou muitas das constituições atuais em todo o mundo — e os alicerces que lançaram para a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.
Os humanistas do Iluminismo:
Revoltaram-se contra as velhas autoridades, como a da Igreja e a da aristocracia;
Defendiam o primado da razão;
Trabalhavam pela educação das massas;
Acreditavam no progresso cultural e tecnológico;
Desejavam banir da religião o fanatismo e o dogma;
Lutavam pela inviolabilidade dos indivíduos, pela liberdade de expressão, pela justiça, pela filantropia e pela tolerância.
Copyright (c) 2002 por Miguel Duarte.
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O tipo de resposta que se recebe à questão “O que é o humanismo?” depende do tipo de humanista a que se pergunta!
A palavra “humanismo” tem diferentes significados. Como, com frequência, autores e oradores não clarificam qual o significado a que se referem, quem tenta explicar o que é o humanismo pode facilmente tornar-se numa fonte de confusão. Felizmente, cada significado da palavra constitui um tipo diferente de humanismo e os diferentes tipos são facilmente separados e definidos pelo uso de um adjectivo apropriado. Torna-se, então, relativamente fácil resumir desta forma as variedades de humanismo.
Humanismo Literário
É a devoção às humanidades ou cultura literária.
Humanismo Renascentista
É o espírito de procura de conhecimento que se desenvolveu no final da Idade Média com o renascer dos textos clássicos e uma confiança renovada na capacidade do ser humano em determinar por si próprio a verdade e a falsidade.
Humanismo Cultural Ocidental
É um nome apropriado para a tradição racional e empírica que se originou em grande parte na Grécia e Roma antigas, evoluiu durante a história europeia e constitui, no presente, um pilar básico da postura Ocidental perante a ciência, a teoria política, a ética e a lei.
Humanismo Filosófico
Aplica-se a qualquer perspectiva ou atitude perante a vida centrada nos interesses e necessidades humanas. As subcategorias deste tipo incluem o Humanismo Cristão e o Humanismo Moderno.
Humanismo Cristão
É definido pelo Terceiro Novo Dicionário Internacional Webster como “uma filosofia que defende a auto-realização do homem dentro da estrutura dos princípios cristãos”. Esta fé mais centrada no homem é, em grande parte, um produto da Renascença e constituiu uma parcela do humanismo Renascentista.
Humanismo Moderno
Também chamado Humanismo Naturalista, Humanismo Científico, Humanismo Ético e Humanismo Democrático, é definido por um dos seus principais proponentes, Corliss Lamont, como “uma filosofia naturalista que rejeita todo o sobrenaturalismo e se apoia com primazia na razão e ciência, na democracia e compaixão humana”. O Humanismo Moderno tem uma origem dupla, secular e religiosa, e estas constituem as suas subcategorias.
Humanismo Secular
É um desenvolvimento do iluminismo racionalista do séc. XVIII e do livre-pensamento do séc. XIX. Muitos grupos seculares, como o Council for Secular Humanism (Conselho pelo Humanismo Secular) e a American Rationalist Federation (Federação Racionalista Americana), e muitos filósofos académicos e cientistas não filiados entre si, defendem esta filosofia.
Humanismo Religioso
Originou, em grande parte, da Cultura Ética, Unitarianismo e Universalismo. No presente, muitas congregações Unitárias Universalistas e todas as sociedades de Cultura Ética descrevem-se como humanistas no senso moderno.
A maior ironia em lidar com o Humanismo Moderno é a tendência dos seus defensores em discordarem se esta visão do mundo é ou não religiosa. Os que o vêem como uma filosofia são os Humanistas Seculares enquanto os que o vêem como uma religião são os Humanistas Religiosos. Este diferendo dura desde o início do séc. XX quando as tradições secular e religiosa convergiram e deram origem ao Humanismo Moderno.
Ambos os Humanistas Seculares e Religiosos partilham a mesma visão do mundo e os mesmos princípios básicos. Isto torna-se claro pelo facto de muitos Humanistas Seculares e muitos Humanistas Religiosos terem estado entre os signatários do Manifesto Humanista I em 1933, Manifesto Humanista II em 1973 e Manifesto Humanista III em 2003. Na perspectiva apenas filosófica não existem diferenças entre os dois. É apenas na definição de religião e na prática da filosofia que os Humanistas Seculares e Religiosos de facto discordam.
A definição de religião usada pelos Humanistas Religiosos é, com frequência, funcional. Religião é o que serve as necessidades pessoais e sociais de um grupo de pessoas que partilham a mesma visão filosófica do mundo.
Ao serviço das necessidades pessoais, o Humanismo Religioso oferece uma base para valores morais, um conjunto inspirador de ideais, métodos para lidar com as realidades mais duras da vida, fundamentos para viver a vida de forma jovial, e um sentimento global de propósito e significado.
Para servir as necessidades sociais, as comunidades humanistas religiosas (como as sociedades Cultura Ética e muitas igrejas Universalistas Unitárias) oferecem um sentimento de pertença, uma estrutura institucional para a educação moral das crianças, programas de férias partilhadas com pessoas com as mesmas ideias, o desempenho de ritos de passagem ideologicamente consistentes (casamentos, boas vindas de crianças, celebrações da maioridade, e por diante), uma oportunidade para a afirmação da filosofia de vida de uma pessoa, e um contexto histórico para as suas ideias.
Os Humanistas Religiosos defendem com frequência que a maior parte dos seres humanos têm necessidades pessoais e sociais que apenas podem ser satisfeitas pela religião (definida no sentido funcional já mencionado). Não concordam que uma pessoa deva ter de escolher entre satisfazer estas necessidades num contexto de fé tradicional ou não as satisfazer de todo; indivíduos que não se sentem em casa na religião tradicional devem conseguir encontrar uma casa na religião não tradicional.
Um jornalista perguntou-me uma vez se esta definição funcional de religião não correspondia a retirar o conteúdo e deixar apenas o invólucro superficial. A minha resposta foi que a verdadeira substância da religião é o papel que ela desempenha na vida das pessoas e na vida da comunidade. As Doutrinas podem diferir de denominação para denominação, e novas doutrinas podem substituir outras mais antigas, mas o propósito que a religião tem para as pessoas mantém-se o mesmo. Se definirmos a substância de algo como aquilo que mais perdura e é universal, então é a função da religião que é a sua substância, o seu conteúdo.
Tendo percepção destes factos, os Humanistas Religiosos certificam-se que nunca é permitido que a doutrina subverta o propósito mais elevado de satisfazer as necessidades humanas no aqui e agora. É por isso que as cerimónias humanistas de boas vindas a crianças são preparadas para cada comunidade e os serviços humanistas de casamento são feitos por medida para satisfazer as necessidades especiais do casal e das suas famílias. É por isso que os serviços fúnebres humanistas se concentram não em salvar a alma dos entes queridos que partiram, mas em proporcionar aos que sobrevivem uma experiência pessoal que relembra como eram em vida os que faleceram. É por isso que os humanistas não proselitizam as pessoas no seus leitos de morte. Acham preferível permitir às pessoas falecerem da forma que viveram, sem serem perturbadas pelas agendas de terceiros.
Finalmente, o Humanismo Religioso é “fé em acção”. No seu ensaio “A Fé de um Humanista”, o Ministro Universalista Unitário (UU) Kenneth Phifer declara:
O Humanismo ensina-nos que é imoral esperar que Deus aja por nós. Devemos agir para parar as guerras e os crimes e a brutalidade desta e de épocas futuras. Temos poderes extraordinários. Temos um elevado grau de liberdade em escolher o que iremos fazer. O Humanismo diz-nos que seja qual for a nossa filosofia do universo, em última instância a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos reside em nós.
Agora, enquanto os Humanistas Seculares possam concordar com muito do que os Humanistas Religiosos fazem, negam que esta actividade seja chamada “religião”. Não se trata de um mero debate semântico. Os Humanistas Seculares defendem que existem tantas coisas na religião merecedoras de crítica que o bom nome do humanismo não deve ser manchado por associação.
Os Humanistas Seculares referem-se com frequência aos Universalistas Unitários como “humanistas que ainda não abandonaram os hábitos da igreja”. Mas os Universalistas Unitários por vezes contrapõem que um Humanista Secular é simplesmente um “Unitário sem igreja”.
O autor polémico Salman Rushdie foi, nos últimos anos, talvez o exemplar mais conhecido da visão do mundo Humanista Secular. Eis o que disse no programa da ABC Nightline a 13 de Fevereiro de 1989, em relação ao seu livro Os Versículos Satânicos.
(O meu livro diz) que existe um antigo, antigo conflito entre a visão secular do mundo e a visão religiosa do mundo, e, em particular, entre textos que reclamam serem de inspiração divina e textos que são inspirados pela imaginação… Eu não confio em pessoas que anunciam serem portadores da verdade e que procuram orquestrar o mundo de acordo com essa verdade. Penso que essa é uma posição no mundo muito perigosa. Necessita ser desafiada. Necessita ser desafiada constantemente de todo o tipo de maneiras, e foi isso que tentei fazer.
Na edição de 2 de Março de 1989 da New York Review explica que em Os Versículos Satânicos :
tentei dar uma visão secular e humanista do nascimento de uma grande religião mundial. Por isto, aparentemente, devo ser julgado … “Hoje estão a ser desenhadas linhas de batalha,” exclama um dos meus personagens. “O Secular contra o religioso, a luz contra a escuridão. É melhor escolheres de que lado estás”.
A tradição Humanista Secular é em parte uma tradição de desafio, uma tradição que remonta à Grécia antiga. Podem-se ver, mesmo na mitologia grega, temas humanistas que raramente, se alguma vez, se manifestam nas mitologias de outras culturas. E não foram certamente repetidos pelas religiões modernas. O melhor exemplo é a personagem Prometeu.
Prometeu sobressai porque era admirado pelos antigos gregos como aquele que desafiou Zeus. Roubou o fogo dos deuses e trouxe-o de volta à terra. Por isso foi punido. E, no entanto, manteve o seu repto durante as suas torturas. Esta é uma das fontes do desafio humanista à autoridade.
A próxima vez que se vê na mitologia uma personagem Prometeana verdadeiramente heróica é Lúcifer no Paraíso Perdido de John Milton. Só que agora é o Diabo. Ele é o mal. Quem quer que se atreva a desafiar Deus deve ser a maldade personificada. Esta parece ser uma certeza da religião tradicional. Mas os antigos gregos não concordavam. Para eles, Zeus, apesar de todo o seu poder, ainda podia estar errado.
Imaginem o quão chocada ficou uma amiga quando lhe contei a minha visão dos “padrões morais de Deus”. Eu disse, “Se existisse um deus assim, e esses fossem de facto os seus princípios morais ideais, eu seria tolerante. Ao fim e ao cabo, Deus tem direitos às suas opiniões!”
Apenas humanistas se sentirão inclinados em falar desta maneira. Apenas humanistas podem sugerir que, mesmo que haja deus, não há problema em discordar dela ou dele. No Eutífron de Platão, Sócrates mostra que Deus não é necessariamente a fonte do bem, ou o próprio bem. Sócrates pergunta se algo é bom porque Deus o ordena, ou se Deus o ordena porque já é bom. No entanto, desde o tempo dos antigos gregos, nenhuma religião maioritária tem permitido este tipo de interrogação da vontade de Deus ou tornou um personagem desobediente num herói. São os humanistas que reclamam esta tradição.
Afinal, muito do progresso humano tem sido em desafio à religião ou à aparente ordem natural. Quando deflectimos um raio ou evacuamos uma cidade antes de ser atingida por um tornado, diminuímos o impacto dos denominados “actos de Deus”. Quanto aterramos na Lua, desafiamos a força gravitacional da Terra. Quando procuramos uma solução para a crise do SIDA, estamos a contrariar, como argumentou o já falecido Reverendo Jerry Falwell, “a punição de Deus aos homossexuais”.
Politicamente, o desafio às autoridades religiosas e seculares levou à democracia, direitos humanos, e à protecção do ambiente. Os humanistas não pedem desculpa por isto. Os humanistas não manipulam nenhuma doutrina bíblica para justificar estas acções. Reconhecem o desafio Prometeano da sua resposta e orgulham-se nisso. Pois esta resposta é parte da tradição.
Outro aspecto da tradição Humanista Secular é o cepticismo. O modelo histórico do cepticismo é Sócrates. Porquê Sócrates? Porque, depois de todo este tempo, ele ainda se destaca sozinho entre todos os santos e sábios famosos, da antiguidade ao presente. Todas as religiões têm os seus sábios. O Judaísmo tem Moisés, o Zoroastrismo tem Zaratustra, o Budismo tem Buda, o Cristianismo tem Jesus, o Islão tem Maomé, o Mormonismo tem Joseph Smith e Bahai tem Baha-u-lah. Cada um destes indivíduos reclamava saber a verdade absoluta. Apenas Sócrates, sozinho entre sábios famosos, dizia não saber nada. Todos desenharam um conjunto de regras ou leis, excepto Sócrates. Ao invés, Sócrates deu-nos um método – um método para questionar as regras dos outros, de contra-interrogação. E Sócrates não morreu pela verdade, morreu pelos direitos e na defesa do estado de direito. Por estas razões, Sócrates é o modelo de humanista céptico. Ergue-se como um símbolo, tanto do racionalismo Grego como da tradição humanista que nele se originou. E nenhum santo ou sábio igualmente reconhecível se juntou à sua companhia desde a sua morte.
Devido à forte identificação Humanista Secular com as imagens de Prometeu e Sócrates, e uma rejeição igualmente forte da religião tradicional, o Humanista Secular concorda, de facto, com Tertuliano que disse: O que é que Jerusalém tem a ver com Atenas?.
Isto é, os Humanistas Seculares identificam-se mais com a herança racional simbolizada pela antiga Atenas do que com a herança de fé representada pela antiga Jerusalém.
Mas não assumam que o Humanismo Secular é apenas negativo. O lado positivo é a libertação, expressa da melhor forma por estas palavras do agnóstico Americano Robert G. Ingersoll:
Quando me convenci que o universo é natural, que todos os fantasmas e deuses são mitos, entrou no meu cérebro, na minha alma, em todas as gotas do meu sangue a sensação, o sentimento, a alegria da liberdade. As paredes da minha prisão derrocaram e caíram. A masmorra foi inundada por luz e todos os ferrolhos e grades e algemas se tornaram pó. Já não era um servente, um servo ou um escravo. Não tinha nenhum mestre em todo o mundo, nem mesmo no espaço infinito. Eu era livre – livre para pensar, para expressar os meus pensamentos – livre para viver o meu próprio ideal, livre para viver para mim e para aqueles que amava, livre para usar todas as minhas capacidades, todos os meus sentidos, livre para espalhar as asas da imaginação, livre para investigar, para pensar o futuro e sonhar e ter esperança, livre para ajuizar e decidir por mim próprio… Era livre! Ergui-me e sem medo, alegremente enfrentei todos os mundos.
O suficiente para fazer um Humanista Secular gritar “aleluia!”.
O facto de o humanismo poder ser, ao mesmo tempo, tanto religioso como secular corresponde a um paradoxo, claro, mas não é o único paradoxo deste género. Outro paradoxo é que tanto Humanistas Religiosos como Seculares colocam a razão acima da fé, em geral até evitarem a fé por inteiro. O humanismo dá normalmente ênfase à dicotomia entre razão e fé, com os humanistas a marcarem posição do lado da razão. Desta forma, o Humanismo Religioso não deve ser encarado como uma fé alternativa, mas sim com um modo alternativo de se ser religioso.
Estas características paradoxais requerem não só um tratamento único do Humanismo Religioso no estudo das religiões do mundo como ajudam também a explicar o contínuo desacordo, tanto dentro e fora do movimento humanista, sobre se o humanismo é de todo uma religião.
Os paradoxos não terminam aqui. O Humanismo Religioso não tem deus, não tem crença no sobrenatural, não acredita na vida para além da morte, e não tem crença numa fonte “superior” de valores morais. Alguns aderentes iriam até tão longe quanto afirmar que é uma religião sem “crenças” de qualquer género – considerando-se preferível o conhecimento baseado em evidências. Para além disso, a noção comum de “conhecimento religioso” enquanto conhecimento reunido por meios não científicos não é aceite na epistemologia Humanista Religiosa.
Como tanto o Humanismo Religioso como o Humanismo Secular se identificam com o Humanismo Cultural, ambos abraçam prontamente a ciência moderna, os princípios democráticos, os direitos humanos e a liberdade de investigação. A rejeição pelo humanismo dos conceitos de pecado e culpa, especialmente quando relacionados com a ética sexual, coloca-o em harmonia com a sexologia e educação sexual contemporâneas, assim como com aspectos da psicologia humanística. E a história de defesa do estado secular faz do humanismo mais uma voz na defesa da separação entre estado e igreja.
Todas estas características levaram à antiga acusação que se ensina na escola pública a “religião do humanismo secular”.
O ponto mais óbvio a esclarecer neste contexto é que algumas religiões agarram-se a doutrinas que colocam os seus seguidores em conflito com certas propriedades do mundo moderno. Outras religiões não o fazem. Por exemplo, muitos Cristãos Evangélicos, em especial os que preenchem as fileiras da “direita religiosa”, rejeitam a teoria da evolução. Por essa razão, vêem o ensino da evolução nas disciplinas de ciência como uma afronta às suas sensibilidades religiosas. Para defenderem as suas crenças da exposição a ideias inconsistentes com elas, estes crentes classificam a evolução como “Humanismo” e dizem que o seu ensino em exclusividade nas aulas de ciências constitui uma brecha na parede Jefersoniana de separação entre igreja e estado.
É de facto verdade que os Humanistas Religiosos, ao abraçarem a ciência moderna, abraçaram também a evolução. Mas indivíduos que seguem as principais correntes do Protestantismo, Catolicismo e Judaísmo também abraçam a ciência moderna – e, por isso, também a evolução. Acontece que a evolução está hoje no pino do desenvolvimento da ciência e é, desta forma, ensinada nas aulas de ciências. O facto de a evolução ter sido identificada com o Humanismo Religioso e não com a corrente principal do Cristianismo ou Judaísmo é um resultado estranho da política na América do Norte. Mas trata-se de um exemplo típico de toda a controvérsia sobre o humanismo nas escolas.
Outras áreas de estudo têm sido identificadas igualmente com o humanismo, incluindo a educação sexual, a educação de valores (values education), a educação mundial (global education) e, até, a escrita criativa. Existem Cristãos fundamentalistas que nos querem convencer que a “ética de situação (situation ethics)” foi inventada pelo Humanista do Ano de 1974 Joseph Fletcher. Mas as considerações situacionais têm sido um elemento da jurisprudência Ocidental há pelo menos 2000 anos! De novo, os Humanistas Seculares e Religiosos, estando em harmonia com os desenvolvimentos recentes, estão confortáveis com tudo isto, assim como estão os seguidores da maioria das principais religiões. Não há justificação para se verem estas ideias como a herança exclusiva do humanismo. Existem, ainda, razões seculares independentes para a oferta pelas escolas do currículo ensinado. Uma parcialidade a favor da “religião do humanismo secular” nunca foi um factor no seu desenvolvimento e implementação.
A acusação de infiltração humanista nas escolas públicas parece ser o resultado de confusão entre Humanismo Cultural e Humanismo Religioso. Apesar de o Humanismo Religioso abraçar o Humanismo Cultural, isto não justifica separar o Humanismo Cultural, rotulando-o como o legado exclusivo de uma religião não teísta e naturalista chamada Humanismo Religioso, e declará-lo um invasor. Fazê-lo seria virar as costas a uma parte significante da nossa cultura e eleger as normas do fundamentalismo cristão como juízes do que é ou não é religioso. Uma compreensão mais profunda da cultura Ocidental ajudaria a clarificar as questões relacionadas com a controvérsia sobre o humanismo nas escolas públicas.
Ao deixar para trás as áreas de confusão, torna-se possível explicar, de forma simples e directa, o que é exactamente a filosofia do Humanismo Moderno. É fácil resumir as ideias base, comuns tanto aos Humanistas Religiosos como aos Humanistas Seculares. Essas ideias são as seguintes:
O Humanismo é uma daquelas filosofias para as pessoas que pensam por si próprias. Não há uma área de pensamento que um Humanista tenha medo de desafiar e explorar.
O Humanismo é uma filosofia centrada nos meios humanos para compreender a realidade. Os Humanistas não reclamam possuir ou ter acesso a conhecimento supostamente transcendental.
O Humanismo é uma filosofia de razão e ciência na procura do conhecimento. Desta forma, quando se chega à questão dos meios mais válidos para adquirir conhecimento do mundo, os Humanistas rejeitam a fé arbitrária, autoridade, revelação e estados alterados de consciência.
O Humanismo é uma filosofia da imaginação. Os Humanistas reconhecem que os sentimentos intuitivos, palpites, especulação, luzes súbitas de inspiração, emoções, estados alterados de consciência e até experiências religiosas, apesar de não serem métodos válidos para a aquisição de conhecimento, mantêm-se fontes úteis de ideias que podem conduzir a novas formas de olhar o mundo. Estas ideias, após um escrutínio racional sobre a sua utilidade, podem ser aplicadas, frequentemente como formas alternativas de resolução de problemas.
O Humanismo é uma filosofia para o aqui e agora. Os Humanistas encaram os valores humanos como fazendo sentido apenas no contexto da vida humana, em vez de no contexto de uma promessa de uma suposta vida para além da morte.
O Humanismo é uma filosofia de compaixão. A ética Humanista preocupa-se apenas com dar resposta às necessidades e problemas humanos – tanto para o indivíduo como para a sociedade – e não dá qualquer atenção à satisfação dos desejos de supostas entidades teológicas.
O Humanismo é uma filosofia realista. Os Humanistas reconhecem a existência de dilemas morais e a necessidade de se considerarem cuidadosamente as consequências imediatas e futuras das decisões morais.
O Humanismo está em sintonia com a ciência actual. Desta forma, os Humanistas reconhecem que vivemos num universo natural de grade tamanho e idade, que evoluímos neste planeta durante um longo período de tempo, que não existe nenhuma evidência convincente de uma “alma” separável, e que os seres humanos têm certas necessidades intrínsecas que formam, efectivamente, a base de qualquer sistema de valores orientado para o homem.
O Humanismo está em sintonia com o pensamento social instruído do presente. Os Humanistas estão empenhados com as liberdades civis, direitos humanos, separação entre igreja e estado, a extensão da democracia participativa, não apenas no governo mas no local de trabalho e educação, a expansão da consciência global e troca de produtos e ideias internacionalmente, e com uma abordagem à resolução de problemas sociais aberta, uma abordagem que permite o teste de novas alternativas.
O Humanismo está em sintonia com novos desenvolvimentos tecnológicos. Os Humanistas estão disposto a participar em novas descobertas científicas e tecnológicas de forma a exercerem a sua influência nestas revoluções conforme se vão tornando realidade, especialmente com o objectivo de protegerem o ambiente.
O Humanismo é, em síntese, uma filosofia para quem está apaixonado pela vida. Os Humanistas assumem responsabilidade pelas suas próprias vidas e saboreiam a aventura de serem parte de novas descobertas, procurando novos conhecimentos, explorando novas opções. Em vez de encontrarem conforto em respostas pré-fabricadas às grandes questões da vida, os humanistas apreciam a abertura de uma procura sem fim determinado e a liberdade de descoberta que dela advém.
Apesar de haver quem sugira que esta filosofia sempre teve uma adesão fraca e excêntrica, os factos da história mostram o contrário. Entre os aderentes modernos do humanismo contam-se Margaret Sanger, fundadora da Planned Parenthood (Reprodução Planeada) e Humanista do Ano da American Humanist Association (Associação Humanista Americana) em 1957; Os pioneiros da psicologia humanística Carl Rogers e Abraham Maslow, também Humanistas do Ano; Albert Einstein, que se identificou com o humanismo nos anos 30 do séc. XX; Bertrand Russell, que aderiu à Associação Humanista Americana nos anos 60 do séc. XX; o pioneiro dos direitos cívicos A. Philip Randoph, que foi o Humanista do Ano em 1970; e o futurista R. Buckminister Fuller, Humanista do Ano em 1969.
A Organização das Nações Unidas (ONU) é um exemplo específico do humanismo em acção. O primeiro Director Geral da UNESCO, a organização da ONU que promove a educação, ciência e cultura, foi o Humanista do Ano de 1962 Julian Huxley, que praticamente compôs os estatutos da UNESCO sozinho. O primeiro Director Geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) foi o Humanista do Ano de 1959 Brock Chisholm. Um dos maiores feitos da OMS foi a erradicação da varíola da face da terra. E o primeiro Director Geral da Organização para a Agricultura e Alimentação (FAO) foi o Humanista Britânico John Boyd Orr.
Entretanto, humanistas como o Humanista do Ano de 1980 Andrei Sakharov ergueram-se em defesa dos direitos humanos onde quer que esses direitos fossem suprimidos. Betty Friedan e Gloria Steinem lutaram pelos direitos das mulheres, Mathilde Krim combateu a epidemia do SIDA, e Margaret Atwood mantém-se como uma das mais vocais defensoras da liberdade literária - todos humanistas.
A lista de cientistas é notável: Stephen Jay Gould, Donald Johanson, Richard Leakey, E.O. Wilson, Francis Crick, Jonas Salk, Steven Weinberg, Carolyn Porco, e muitos outros – todos sócios da Associação Humanista Americana, cujo presidente nos anos 80 do séc. XX foi o já falecido cientista e escritor Isaac Asimov.
A lista de sócios de organizações humanistas, tanto religiosas como seculares, lê-se como um Quem é quem. Através destas pessoas, e muitas outras menos conhecidas, a filosofia humanista teve um impacto no nosso mundo muito desproporcionado em relação ao número de aderentes. Isso diz-nos algo sobre o poder de ideias que funcionam.
Talvez este facto tenha levado o filósofo George Santayana a declarar que o humanismo é “um feito, não uma doutrina”.
Em resumo, com o humanismo moderno encontramos uma postura perante a vida ou uma visão do mundo que está em sintonia com o conhecimento moderno; é inspirador, socialmente consciente e com significado pessoal. Não é apenas a atitude da pessoa que pensa mas também da pessoa que sente, já que inspirou as artes tanto quanto inspirou as ciências; filantropia tanto quanto crítica. E mesmo na crítica é tolerante, defendendo os direitos de todas as pessoas em escolher outros caminhos, em falarem e escreverem livremente, em viverem as suas vidas de acordo com as suas luzes.
A escolha é, por isso, sua. É um humanista?
Não precisa de responder “sim” ou “não”. Pois não se trata de uma proposição “ou isto ou aquilo”. O Humanismo é seu – para adoptar ou simplesmente usar como fonte de inspiração. Pode usar pouco ou muito, bebericar ou sorver até à última gota.
A decisão é sua.
Este é o texto de uma palestra que tem sido apresentada a várias audiências ao longo dos anos.
O Humanismo Secular é um termo que tem sido usado nos últimos trinta anos para descrever uma visão de mundo com os seguintes elementos e princípios:
Uma convicção de que dogmas, ideologias e tradições, religiosas, políticas ou sociais, devem ser avaliados e testados por cada individuo em vez de simplesmente aceites por uma questão de fé.
Compromisso com o uso da razão crítica, evidência factual, e método científico de pesquisa, em lugar da fé e misticismo, na busca de soluções para os problemas humanos e respostas para as questões humanas mais importantes.
Uma preocupação primeira com a satisfação, desenvolvimento e criatividade tanto para o indivíduo quanto para a humanidade em geral.
Uma busca constante pela verdade objectiva, com o entendimento que nossa percepção imperfeita dessa verdade é constantemente alterada por novos conhecimentos e experiências.
Uma preocupação com a vida presente e um compromisso de dotá-la de sentido através de um melhor conhecimento de nós mesmos, nossa história, nossas conquistas intelectuais e artísticas, e as perspectivas daqueles que diferem de nós.
Uma busca por princípios viáveis de conduta ética (tanto individuais quanto sociais e políticos), julgando-os por sua capacidade de melhorar o bem-estar humano e a responsabilidade individual.
Uma convicção de que com a razão, um mercado aberto de ideias, boa vontade, e tolerância, poder-se-á progredir na construção de um mundo melhor para todos nós.
Como os Humanistas Seculares vêem as alegações religiosas e sobrenaturais?
Os Humanistas Seculares seguem uma perspectiva ou filosofia chamada de Naturalismo, na qual as leis físicas do universo não são subordinadas a entidades imateriais ou sobrenaturais como demónios, deuses, ou outros seres “espirituais” fora do domínio do universo natural. Eventos sobrenaturais como milagres (que contradizem as leis físicas) e fenómenos psíquicos, como percepção extra-sensorial, telepatia, etc., não são descartados automaticamente, mas são vistos com um alto grau de cepticismo.
Os Humanistas Seculares são Ateus?
Os Humanistas Seculares tipicamente descrevem-se como ateus (sem crença em um deus e bastante cépticos quanto à possibilidade de haver um) ou agnósticos (sem crença em um deus e em dúvida quanto à possibilidade). Os Humanistas Seculares têm origens filosóficas e religiosas bastante diversas, desde o fundamentalismo cristão até sistemas de crenças liberais e o ateísmo de nascença. Alguns alcançaram conforto em uma posição humanista secular após um período de deísmo. Deístas são aqueles que expressam um sentimento vago ou místico de que uma inteligência criativa pode estar, ou em algum momento esteve, conectada ao universo ou envolvida com a sua criação, mas que é agora não-existente ou não está ocupada com o seu funcionamento.
Os Humanistas Seculares não dependem de deuses ou outras forças sobrenaturais para resolver seus problemas ou oferecer orientação para suas condutas. Em vez disso, dependem da aplicação da razão, das lições da história, e experiência pessoal para formar um fundamento moral e ético e para criar sentido na vida. Humanistas Seculares vêem a metodologia da ciência como a mais confiável fonte de informação sobre o que é factual ou verdadeiro sobre o universo que todos partilhamos, reconhecendo que novas descobertas sempre estarão alterando e expandindo nossa compreensão deste, e possivelmente mudarão também nossa abordagem de assuntos éticos.
Qual é a Origem do Humanismo Secular?
O Humanismo Secular enquanto um sistema filosófico organizado é relativamente novo, mas os seus fundamentos podem ser encontrados nas ideias de filósofos gregos clássicos como os Estóicos e Epicurianos, bem como no Confucionismo Chinês. Estas posições filosóficas buscavam as soluções de problemas humanos em seres humanos em vez de deuses.
Durante a Idade das Trevas da Europa Ocidental, as filosofias humanistas foram suprimidas pelo poder político da igreja. Aqueles que ousavam expressar opiniões em oposição aos dogmas religiosos dominantes eram banidos, torturados ou executados. Foi apenas na Renascença dos séculos XIV a XVII, com o desenvolvimento da Arte, Música, Literatura, Filosofia e as grandes navegações, que a consideração à alternativa humanista a uma existência centrada em Deus passou a ser permitida. Durante o Iluminismo do século XVIII, com o desenvolvimento da ciência, os filósofos finalmente começaram a criticar abertamente a autoridade da igreja e a envolver-se no que se tornou conhecido como “Livre-Pensamento”.
O movimento Livre-Pensador do XIX na América do Norte e Europa Ocidental finalmente tornou possível para o cidadão comum a rejeição da fé cega e superstição sem o risco de perseguição. A influência da ciência e tecnologia, conjuntamente com os desafios à ortodoxia religiosa por célebres livres-pensadores como Mark Twain e Robert G. Ingersoll trouxeram elementos da filosofia humanista até mesmo para igrejas cristãs tradicionais, que se tornaram mais preocupadas com este mundo, e menos com o próximo.
No século XX cientistas, filósofos e teólogos progressistas começaram a organizar-se num esforço para promover a alternativa humanista às tradicionais perspectivas baseadas na fé. Esses primeiros organizadores classificaram o humanismo como uma religião não teísta que preencheria a necessidade humana de um sistema ético e filosófico organizado para orientar as nossas vidas, uma “espiritualidade” sem o sobrenatural. Nos últimos trinta anos, aqueles que rejeitam o sobrenaturalismo enquanto opção filosófica viável adoptaram o termo “Humanismo Secular” para descrever sua postura de vida não religiosa.
Os seus críticos frequentemente tentam classificar o Humanismo Secular como uma religião. No entanto, o Humanismo Secular carece das características essenciais de uma religião, inclusivamente a crença em uma divindade e uma ordem transcendente que a acompanha. Os humanistas seculares mantêm que assuntos referentes a ética, conduta social e legal adequadas, e metodologia da ciência são filosóficos e não pertencem ao domínio da religião, que lida com o sobrenatural, místico e transcendente.
Conclusão
O Humanismo Secular, consequentemente, é uma filosofia e perspectiva que se concentra nos assuntos humanos e emprega métodos racionais e científicos para lidar com a larga variedade de assuntos importantes para todos nós. Ao mesmo tempo que o Humanismo Secular é adverso aos sistemas religiosos baseados em fé em muitos pontos, ele se dedica ao desenvolvimento do indivíduo e da humanidade em geral. Para alcançar esta meta, o Humanismo Secular encoraja a dedicação a um conjunto de princípios que promovem o desenvolvimento da tolerância e compaixão e uma compreensão dos métodos da ciência, análise crítica, e reflexão filosófica.
Agnóstico: A palavra “agnóstico” é por vezes utilizada para descrever alguém que não consegue decidir se acredita ou não num deus. Estará, talvez, “em cima do muro”. No entanto, o uso original da palavra servia para descrever alguém que acredita que não podemos saber com certeza se um deus existe ou não, e é nesse sentido que muitas pessoas não-religiosas a utilizam hoje em dia.
Algumas pessoas descrevem-se como sendo tanto agnósticas quanto ateias (ou ateus agnósticos). Aceitam que não podemos saber com certeza se um deus existe ou não (é impossível provar que algo não existe), mas não acreditam em nenhum e vivem as suas vidas em conformidade.
Apateísta: É um termo mais recente mas muito relevante para a sociedade atual. O apateísmo (uma amálgama de apatia e teísmo) descreve a atitude de alguém que é completamente indiferente à existência ou não-existência de Deus ou de deuses. Para um apateísta, a questão religiosa não tem qualquer interesse, impacto ou relevância na sua vida quotidiana, nas suas decisões morais ou na forma como vê o mundo. Ao contrário de um ateu ou agnóstico militante, que pode debater ativamente o tema, o apateísta simplesmente não quer saber.
Ateu: A palavra “ateu” é utilizada para descrever alguém que não acredita num deus. Esta ausência de crença não é uma posição de fé, mas baseia-se tipicamente no facto de a pessoa não ver evidências ou razões válidas ou convincentes para acreditar num deus ou em deuses. No entanto, saber que alguém é ateu não nos diz mais nada sobre as suas crenças mais amplas, valores ou visão do mundo. Muitos ateus terão uma abordagem humanista da vida, mas alguns não. Algumas pessoas que consideram ter uma identidade religiosa (por exemplo, judaica ou anglicana), talvez por razões familiares ou culturais, também são ateias porque não acreditam num deus.
Cético: Hoje em dia, significa habitualmente alguém que duvida da verdade das crenças religiosas e de outras crenças sobrenaturais ou “paranormais”. (“Cético” também tem um significado filosófico especial: alguém que rejeita ou é cético em relação a todas as alegações de conhecimento).
Espiritualmente não-religioso (ou “Sem religião, mas espiritual”): Descreve um grupo de pessoas que rejeitam as religiões organizadas, os seus dogmas e as suas instituições (igrejas), mas que ainda sentem necessidade de cultivar uma vida interior, um sentido de transcendência, conexão com o universo ou com a natureza. Não se identificam como ateias materialistas, preferem procurar o bem-estar e o significado da vida através de práticas individuais (como a meditação ou o ioga) ou de filosofias orientais secularizadas, sem se vincularem a nenhuma estrutura eclesiástica.
Humanista: Um humanista é uma pessoa não-religiosa que acredita que esta é a única vida que temos, que podemos viver vidas significativas e plenas no aqui e agora, e que devemos apoiar os outros a fazer o mesmo. Acreditam que a ciência fornece a melhor forma de compreender o mundo à nossa volta e não veem evidências convincentes para acreditar num deus, numa força superior ou em quaisquer aspetos sobrenaturais da realidade. Tomam as suas decisões éticas com base na empatia e na preocupação com o bem-estar dos seres humanos e de outros animais sencientes, e tentam dar uma contribuição positiva para a construção de uma sociedade melhor.
Humanista Secular: Embora o termo “humanista” já implique a não-religião em muitos contextos internacionais, em Portugal e noutros países de matriz católica, o termo “humanismo” é por vezes reivindicado por correntes religiosas (como o humanismo cristão). Por isso, muitos não-religiosos preferem autodenominar-se especificamente “humanistas seculares”. Esta designação deixa claro que a sua postura ética, moral e filosófica se baseia estritamente na razão, na ciência e na experiência humana, sem qualquer recurso a dogmas religiosos, revelações divinas ou textos sagrados.
Naturalista: Um naturalista (no contexto da visão do mundo e da filosofia) é alguém que defende o naturalismo filosófico. Trata-se da convicção de que o mundo natural, o universo físico regido pelas leis da natureza que a ciência estuda, é tudo o que existe. Os naturalistas rejeitam a existência de entidades sobrenaturais, tais como deuses, espíritos, feitiçaria, milagres ou uma “vida além-túmulo”, por considerarem que não há provas científicas da sua existência. Para um naturalista, a mente humana e a consciência são fenómenos inteiramente naturais, resultantes da evolução biológica e da atividade cerebral, e não de uma alma imaterial.
Este termo não deve ser confundido com o sentido histórico de “naturalista” enquanto biólogo de campo ou cientista da natureza, como Charles Darwin, embora partilhem a mesma raiz de respeito e estudo pelo mundo natural.
Laico / Laicista: Nas línguas latinas (com forte raiz na “laïcité” francesa), o termo está diretamente ligado ao princípio político e constitucional da laicidade do Estado (consagrado na Constituição da República Portuguesa). Define a separação total e institucional entre o Estado e as confissões religiosas. Alguém que defende ativamente este princípio é um laicista ou defensor da laicidade. O Estado laico é estritamente neutro: não apoia, não financia e não privilegia nenhuma religião, garantindo que o espaço público pertence a todos, crentes e não-crentes. Muitos humanistas são defensores da laicidade, mas também muitas pessoas religiosas a apoiam para garantir a sua própria liberdade de culto.
Os defensores da laicidade acreditam que:
Deve existir uma separação absoluta e jurídica entre as instituições religiosas e as instituições do Estado;
O Estado deve ser inteiramente neutro em matéria religiosa, não adotando nenhuma crença como oficial;
Os indivíduos devem ter total liberdade de religião ou de crença, incluindo a liberdade de não ter religião, de rejeitar ou de mudar de convicções;
Deve existir igualdade de tratamento cidadão, sem qualquer privilégio (como regimes fiscais de exceção) ou discriminação com base na religião ou crença.
Livre-pensador: Foi um termo popular no século XIX, utilizado por aqueles que rejeitavam a autoridade em matérias de crença, especialmente crenças políticas e religiosas. Ainda é utilizado em diferentes línguas em alguns países europeus por organizações não-religiosas para se descreverem a si próprias.
Não-crente: Estes termo é frequentemente utilizado para descrever alguém que não acredita num deus. Muitos ateus preferem não utilizar estas palavra porque as pessoas que não acreditam num deus possuem, naturalmente, muitas outras crenças (sobre a natureza da realidade, sobre como devemos viver e sobre como devemos tratar os outros).
Racionalista: Pode significar alguém que prioriza o uso da razão e considera a razão crucial para investigar e compreender o mundo. Os racionalistas rejeitam frequentemente a religião com o argumento de que acreditam que esta não pode ser fundamentada na razão. (O racionalismo é por vezes contrastado com o fideísmo — posições que dependem de ou defendem a ‘fé’ até certo ponto).
Secular / Secularista: Embora na tradição anglo-saxónica (secularism) se confunda frequentemente com a laicidade, em Portugal o termo “secular” refere-se historicamente ao que pertence ao mundo temporal, civil ou profano (por oposição ao estritamente religioso ou clerical). O termo “secularização” descreve o fenómeno sociológico em que a cultura, a moral pública, a ciência e os comportamentos sociais se emancipam da tutela e dos dogmas da Igreja. Um secularista, neste contexto, foca-se na promoção de uma sociedade civil orientada por valores terrenos, racionais e humanos, onde as decisões do quotidiano e a ética social se desenvolvem de forma independente das doutrinas religiosas.
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O Dia Internacional Humanista é celebrado anualmente a 21 de junho, uma data que une humanistas de todo o mundo na promoção dos valores positivos do Humanismo e na partilha das preocupações globais do movimento. Esta celebração, que remonta à década de 1980, é uma oportunidade para refletir sobre a importância da ética secular, da razão e da compaixão na construção de uma sociedade mais justa e humana.
O que é o Dia Internacional Humanista?
O Dia Internacional Humanista é uma iniciativa global que visa:
Divulgar os princípios do humanismo: uma filosofia de vida baseada na razão, na ética secular e na compaixão.
Promover a unidade entre humanistas: independentemente da sua localização geográfica ou contexto cultural.
Celebrar a humanidade: através de ações que reforçam a importância do conhecimento, da ciência e da solidariedade.
Esta data foi oficialmente estabelecida no final da década de 1980 e início da década de 1990, após resoluções aprovadas pela Associação Humanista Americana (AHA) e pela Internacional Humanista. A escolha do dia 21 de junho não é aleatória: coincide com o solstício de junho (solstício de verão no hemisfério norte e de inverno no hemisfério sul), um momento de significado histórico e científico que simboliza a luz do conhecimento a iluminar a ignorância.
Origens do Dia Internacional Humanista
A história do Dia Internacional Humanista é tão rica como o próprio movimento humanista:
Década de 1980: Vários capítulos locais da AHA começaram a celebrar o dia, embora sem uma data unificada. Alguns optavam pelo aniversário da fundação da União Humanista e Ética Internacional (atual Internacional Humanista), enquanto outros escolhiam datas significativas para o humanismo.
Fim da década de 1980 e início de 1990: Tanto a AHA como a Internacional Humanista aprovaram resoluções para oficializar o 21 de junho como o Dia Internacional Humanista. O processo democrático e participativo na escolha desta data reflete os valores do movimento.
Desde então, o dia é celebrado anualmente, unindo humanistas em todo o mundo em torno de valores comuns.
Porque celebramos a 21 de junho?
A data do 21 de junho foi escolhida por várias razões simbólicas:
Solstício de junho: Um fenómeno natural que marca o início do verão no hemisfério norte e do inverno no hemisfério sul. O solstício é um momento de transição e reflexão, com ecos em antigas tradições comunitárias.
Simbolismo da luz: O solstício representa a vitória da luz sobre a escuridão, uma metáfora para o conhecimento e a razão a superarem a ignorância.
Unidade global: O solstício é um evento partilhado globalmente no mesmo momento do calendário, reforçando a ideia de uma comunidade humanista unida.
Como celebrar o Dia Internacional Humanista
O Dia Internacional Humanista pode ser celebrado de inúmeras formas, desde atos individuais a eventos comunitários. Aqui ficam algumas sugestões inspiradas em celebrações passadas:
Ações individuais
Partilhe a sua história: Nas redes sociais, explique porque é humanista. Use a hashtag #DiaHumanistaMundial.
Eventos comunitários
Conferências ou cursos: Organize palestra ou cursos introdutórios sobre humanismo.
Debates e discussões: Aborde tópicos globais, como os direitos humanos, ou partilhe caminhos pessoais para o humanismo.
Proclamações públicas: Solicite à sua autarquia local uma proclamação oficial para reconhecer a importância do dia.
Festas ou piqueniques: Aproveite o solstício para organizar um evento ao ar livre, com comida, jogos e discussões.
Cerimónias simbólicas: Crie rituais que destaquem o simbolismo do solstício, como leituras ou música.
Ações de divulgação: Use outdoors, exibições em bibliotecas ou cobertura mediática para promover o humanismo.
Junte-se ao movimento humanista
O Dia Internacional Humanista é também uma ótima altura para apoiar organizações humanistas. Contribua para a promoção do humanismo e para a defesa de humanistas em risco em todo o mundo. Quer através da Internacional Humanista ou da sua representante em Portugal a Associação República e Laicidade.